Como ser feliz: Desespere-se

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Já dizia Blaise Pascal, um francês que dentre outras coisas era filósofo: “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção… É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar”.

Falar de felicidade e de como ser feliz parece ser uma banalidade, ainda mais nos dias de hoje em que nossa sociedade surfa nas ondas das redes sociais, local onde todos parecem estar felizes o tempo todo. Por trás das telas de dispositivos está sempre alguém que parece ter descoberto a fórmula mágica da felicidade eterna e quem não segue essa linha recebe os rótulos de cafona, chata e é alvo para bullyings: ela está sofrendo por alguém, está postando textos tristes, essa é uma mulher fraca e negativa, devemos nos afastar dela.

Mas o que seria felicidade?

Esse é um conceito que filósofos têm debatido por séculos (assim como o amor) e com diversas definições. A linha que gosto de seguir, mas não como verdade absoluta, é a de Santo Agostinho o qual afirma que a verdadeira felicidade é “a alegria que nasce da verdade”. Agostinho usa essa expressão para definir a beatitude como a felicidade dos sábios (que detêm sabedoria), em oposição às felicidades que nós, que não somos sábios conhecemos, ou seja, às nossas aparências de felicidade alimentadas por drogas, álcoois e por vezes, ilusões amorosas.

Não é incomum pessoas associarem sua infelicidade com as (Des)ilusões amorosas.

As pessoas passam a depositar as suas falhas na falta de reciprocidade alheia e isso as corrói. Passam a acreditar que são desmerecedoras da tal felicidade, e ao se deparar com as vidas “vendidas” em redes sociais, esse quadro se agrava: por quê todas as pessoas parecem felizes e bem-sucedidas, mas eu não? Eu me esforcei o máximo que pude, ninguém valoriza o que eu sou, e a culpa de minha tristeza é do outro. Maldito seja todos os alheios!

É nesse momento que eu afirmo: não entre nesse buraco de culpa! Isso é um caminho perigoso. Você não é a culpada por não terem notado seu valor. Você não é a perdedora, o outro que te perdeu. O valor que você possui será aproveitado por alguém que realmente te enxergará, e para isso você precisa continuar brilhando e não ofuscada em um buraco.

É preciso fazer uma reflexão de que tipo de sociedade vivemos hoje. Olhe ao seu redor e veja como estamos nos comportando. É essa realidade que você precisa se adaptar, sem perder sua essência. Os valores básicos têm se perdido, somos uma sociedade cada vez menos empática e formada por uma massa de medrosos. Somos chamados de “geração líquida” por cientistas sociais. E se você ainda cultiva seu caráter, se o sustenta em meio a essa adversidade, então preciso dizer que você é o verdadeiro tesouro. Na verdade, um baita achado! Obrigado por existir!

– Você disse medrosos?

-Sim! Somos todos medrosos e covardes.

Exibir sentimentos é exibir vulnerabilidades, é ser fraco e carregar um sinal de desmerecimento. Pessoas começam a sentir medo de mostrar seus reais interesses e sentimentos. Se acovardam por trás de muros construídos para esconder sua sensibilidade e seu “eu-real”. E você passa a ser uma presa fácil em uma região onde as coisas acontecem rápido demais, pessoas se relacionam rápido demais, amam e se odeiam em um piscar de olhos. Você, a lenta pois está carregada de valores, é literalmente atropelada por esse mutirão de pessoas com sentimentos rasos.

A sensação que os “medrosos e covardes” possuem ao tentar lidar com você, a lenta, é que eles estão perdendo algo. Perguntam-se se fizeram a melhor escolha, fala-se em custo de oportunidade (o que se deixa de ganhar porque está dedicado à outra coisa), e acabam ponderando se você vale a pena, apesar de todos os seu valores: pessoas tornam-se descartáveis.

Assim começa uma disputa de egos. Quem descarta o outro primeiro, quem finge melhor que nada está sentindo (mas por dentro está liquidado ou amando) e quem consegue uma outra pessoa mais rápido para mostrar que está tudo bem.

E como lidar com essa situação?

Bem, minha resposta é DesesperaR-se!

Para entender esse caminho é preciso lidarmos com a definição do que é esperança e quão frustrante é nutri-la.

Manter uma esperança é manter um desejo. Toda esperança é desejo e você não pode manter uma esperança por aquilo que você não deseja. Desejar é ter aquilo que você ainda não possui, algo que ainda não aconteceu, e por isso a esperança se refere a algo futuro, afinal, esperança é esperar. Posso dizer dessa forma que esperar é desejar sem gozar daquilo que você não possui.

Agora partimos para a situação é quem você está apaixonada, e se declara para a pessoa que, na sua visão, é o amor da sua vida. Você espera uma resposta positiva, mas ainda não sabe qual será a resposta, você lida somente com a expectativa. Você passa a criar uma esperança que é fruto de um desejo que ignora se foi ou será satisfeito. Posso dizer: esperar é desejar sem saber.

Ao mesmo tempo que você espera uma afirmativa positiva, e sem saber como lidar com o que te aflige, é angustiante alimentar essa esperança que cresce e te aniquila por dentro. Te consome e te leva à loucura e sofrimento. Você quer tocar, quer possuir, quer desejar e ter seus anseios correspondidos, mas você não pode. E nesse contexto: esperar é desejar sem poder.

é nessa esperança que reside a infelicidade. Esperança é esperar sem gozar, sem saber e sem poder.

Você anseia, cria expectativas que não dependem de você, espera gozar, mas não consegue, e de fato fica sem saber se um dia terá seus sentimentos correspondidos.

Angustiante não é mesmo? A saída é não nutrir a esperança, é “Desesperançar” ou Desesperar-se (perder a esperança).

Torna-se desapegado é uma prática que se conquista com o tempo. Passe a entender que a felicidade parte de sua omissão em não alimentar os frutos de sua infelicidade. É entender que o outro não é obrigado a enxergar seu valor e ter consciência que você merece na medida aquilo que você oferece: nada mais, nada menos.

Continue sendo sua melhor versão, doe-se e importe-se, mas não crie muros, muito menos nutra a esperança, e assim você será feliz ou “não infeliz“.

Não espere! Não crie expectativas! Faça acontecer! 

E então? Vamos praticar o Desespero?

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